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Posted 07/08/2017 by mauro in Magazine
 
 

Dunkirk: a obra-prima de Christopher Nolan também é o maior filme de 2017



Christopher Nolan é o cineasta mais ambicioso da sua geração. Isso não significa que ele será o melhor – a corrida ficou acirrada quando um tal de Denis Villeneuve caiu na graça dos estúdios norte-americanos e mostrou do que era capaz com Sicario e A Chegada. Nolan, porém, tornou-se a galinha dos ovos de ouro de Hollywood bem antes, em 2005, quando foi o escolhido para dirigir o reboot da franquia Batman, em 2005.

Pouco mais de dez anos depois, entre acertos (O Grande Truque, Batman: O Cavaleiro das Trevas) e blockbusters acima da média, mas com grandes problemas (A Origem, Interestelar), o diretor encontrou a sua obra prima – e Dunkirk não é apenas o auge de sua carreira, mas um marco no gênero de guerra.

O maior trunfo do anglo-americano? Acabar com seu calcanhar de Aquiles: a falta de objetividade. E parte disso pode ter uma explicação simples (além da simples evolução técnica): diferente de toda sua filmografia, Dunkirk realmente aconteceu. A cidade portuária francesa foi palco de um dos acontecimentos mais históricos da Segunda Guerra Mundial – o resgate de 300 mil soldados britânicos e franceses, encurralados por tropas alemãs. Com essa amarra, Nolan não precisou pirar em teorias de viagem no tempo nem sonhos implantados: sua maior preocupação tornou-se, então, encontrar uma maneira original de contar uma história verdadeira.

Para a alegria de qualquer fã de cinema, ele conseguiu.

Diferente de qualquer crítica arrastada e chata de cinema (que, se vale de algo, tenta ao menos quebrar a quarta parede), Dunkirk têm um ritmo tão acertado que sua uma hora e quarenta e cinco minutos são todo o tempo necessário para nos fazer entender a importância daquele acontecimento. Ao mesmo tempo, tanto acontece que é como se o tempo dobrasse.

A história acontece em três momentos (e lugares) diferentes: terra (cuja narrativa dura uma semana), mar (um dia) e ar (uma hora). Conforme o filme desenvolve-se, fica claro que as três irão, eventualmente, convergir – mas é justamente no momento em que o espectador percebe como isso acontece que o longa mostra a que veio.

Optar por contar três histórias diferentes sobre um mesmo acontecimento dá outro trunfo a Nolan: investir em novatos (Barry Keoghan e Fionn Whitehead são ótimas surpresas) que não comprometem e deixar que seus amuletos da sorte (Tom Hardy, cada vez mais brilhante dentro de seus minimalismos e Cillian Murphy, que protagoniza alguns dos momentos mais tensos da obra ao lado de Mark Rylance) façam o trabalho de sempre. Até Harry Styles – que não se decidiu sobre ser cantor, ator ou o homem mais bem-vestido do momento – segura a onda.

É quase desnecessário dizer que Hans Zimmer faz, de novo, um trabalho memorável – e que deve abocanhar mais um Oscar. Para além da trilha sonora, fotografia, edição de som, mixagem de som já são prêmios óbvios para 2018. Será preciso um filme de proporções épicas para batalhar com o drama de guerra – e, no horizonte, apenas Blade Runner 2049, ironicamente de Villeneuve, pode representar algum perigo.

O que faz de Dunkirk um filme tão maravilhoso é a capacidade de ir além em um gênero cujas regras foram escritas há tanto tempo. Nolan sabe o exato momento de abraçar um clichê e quando surpreender a audiência. Consegue criar sequências de tirar o fôlego alheio – mesmo que tudo o que você veja no céu sejam dois aviões e nada mais. O diretor finalmente descobriu que não precisa de três horas para fazer uma obra-prima. E, ironicamente, encontrou o potencial de toda sua ambição nos detalhes.

Da GQ Brasil
Por LUCAS BARANYI